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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Serra e Marta, por Cláudio Gonçalves Couto


Por Cláudio Gonçalves Couto

Num mesmo dia, nesta semana, dois episódios cheios de coincidências mobilizaram as atenções do noticiário político brasileiro. Ambos envolveram ex-presidentes da República, ex-prefeitos da capital paulista, candidaturas a prefeito em São Paulo e demonstrações claras de preferência por novos nomes na cena política. Também deixaram claro como pode ser custosa a insistência de lideranças políticas desgastadas em forçar seu próprio espaço, a despeito de projetos partidários mais amplos e da necessidade de renovação, pois, ao fazer isto, põem em xeque a continuidade de sua própria influência e do projeto que integram.
Os episódios aos quais me refiro foram a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à revista "The Economist" e a presença do ex-presidente Lula na solenidade de transmissão dos cargos de ministro da Educação e Ciência e Tecnologia. No primeiro, Fernando Henrique novamente demonstrou o quanto lhe tem apetecido o papel de ex-presidente ativo (que cada vez mais vem assumindo, sobretudo dentro de seu partido) e desferiu uma crítica aberta à postura de José Serra no PSDB, a qual muito tem contribuído muito para a marcha lenta dos tucanos e, consequentemente, sua impotência oposicionista.
Candidato duas vezes derrotado à Presidência da República, Serra não digeriu nada bem a última derrota eleitoral. Como naqueles jogos de futebol em que os ânimos se exaltam durante a partida e, ao final, o time derrotado busca briga ou deixa o campo desferindo acusações, o candidato tucano saiu-se como mau perdedor. De início, não reconheceu publicamente a vitória de sua oponente antes que esta fizesse seu discurso de vitoriosa. Ao seu estilo de fazer o tempo passar, Serra ficou na moita, não deixando à presidenta eleita outra alternativa senão fazer o discurso da vitória sem o prévio reconhecimento protocolar da derrota pelo segundo colocado.
ite dir="ltr">FHC e Lula são capazes de agir como árbitros
Com isto, Serra reservou para si a última palavra no dia da eleição, ocasião na qual cometeu uma segunda deselegância: apresentou-se como candidato presidencial pela terceira vez, mediante o célebre "até breve", desconsiderando a muito mais natural candidatura de Aécio Neves, que nem sequer foi mencionado. Na sua entrevista à "Economist", Fernando Henrique apontou o dedo para o problema, sobretudo ao observar que Serra tenta mimetizar Lula em sua atávica sede pela competição presidencial, apresentando-se insistentemente até que um dia a vitória chegue.
Há, contudo, uma colossal diferença entre as importâncias relativas de Serra para o PSDB e Lula para o PT, mesmo antes de este tornar-se presidente pela primeira vez. Lula, mesmo pertencendo a um partido organizacionalmente muito mais robusto e coletivista do que o de Serra, sempre logrou personificá-lo. Já o tucano é apenas uma liderança de primeira grandeza em sua agremiação, capaz de conduzi-la à letargia e à indecisão, tornando-a refém de seus movimentos. Foi assim na disputa presidencial de 2010; é assim novamente na disputa municipal de 2012. É por isto que no caso de Serra decidir ser candidato a prefeito, toda a energia despendida pelo partido e pelos pré-candidatos até agora terá sido puro desperdício.
Assim, se o primeiro episódio mostra o quanto os caprichos de Serra paralisam o PSDB, o segundo revela o quanto a ascendência de Lula faz o PT se mover. Isto ocorrera na invenção da candidatura Dilma para um partido órfão de nomes após o escândalo do mensalão e se repetiu na disputa paulistana, com o deslocamento de Marta Suplicy e a apresentação do nome de Fernando Haddad. Neste caso, o poder pessoal do ex-presidente contrapôs-se ao controle da máquina partidária, invertendo o equilíbrio da disputa de forma não só a promover uma renovação, mas evitar o risco de uma provável derrota camuflada pelo recall das pesquisas eleitorais e pelo sucesso recente numa eleição majoritária em que não há segundo turno e havia duas vagas em disputa (Marta ficou em segundo lugar).
No caso do PT, todavia, é Marta quem parece mimetizar Serra. Após o malogro de sua pré-candidatura a prefeita, faz-se de rogada no acordo interno que a bancada petista no Senado estabeleceu, de um rodízio na vice-presidência da Casa. É provável que Marta tenha aceitado esse acordo com base na convicção de que seria candidata em São Paulo, mas como sua expectativa frustrou-se, decidiu apegar-se ao cargo como uma compensação por aquilo que lhe foi virtualmente tirado. Ou, simplesmente, percebeu na preservação dessa posição a manutenção de um quinhão de poder que lhe seria útil em futuras disputas políticas. Ressalve-se, contudo, que Marta não é Serra e o PT não é o PSDB. Ou seja, não são negligenciáveis os custos intrapartidários de uma quebra de confiança como esta. A senadora corre o risco de isolar-se na bancada petista e no partido, e o isolamento pessoal numa organização partidária robusta como o PT tende a ser muito pernicioso para quem pretende preservar sua influência.
É bem conhecida a máxima política segundo a qual é necessário, frequentemente, dar um passo atrás para que seja possível dar dois à frente. Certas vezes, a realidade é ainda mais dura do que o provérbio: derrotas que por si mesmas representam um passo atrás obrigam um passo atrás adicional, sem que se possa ter a certeza de que esses serão compensados por passos adicionais à frente, mas essa é a condição para que se possa seguir caminhando. Há momentos em que as lideranças políticas devem decidir se aceitam o recuo para poder seguir em frente, ou se preferem não ceder e lançar-se ao precipício, com frequência levando consigo todo um projeto coletivo.
Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP e colunista convidado do "Valor". César Felício volta a escrever em fevereiro
E-mail claudio.couto@fgv.br

FHC decreta o fim de Serra

fonte: luis nassif on line
Coluna Econômica - 26/01/2012
Na segunda-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu uma entrevista ao blog do The Economist. Na terça-feira a entrevista foi reproduzida pelos principais jornais.
Nela, FHC rompe com limitações emocionais, reconcilia-se com sua biografia e ajuda a salvar o que resta do PSDB: rompe politicamente com José Serra, através de um diagnóstico duro:
  • O PSDB perdeu as eleições de 2010 devido a erros primários na campanha.
  • Esses erros foram de responsabilidade exclusiva de José Serra, por seu individualismo, arrogância e pelos conflitos que criou dentro do próprio partido.
  • Aécio Neves é o candidato natural do PSDB nas próximas eleições.  Serra não tem possibilidade de vitória.
A terça-feira foi dos piores dias da vida de Serra. Contrariando seus hábitos – de dormir tarde e levantar tarde – antes das 7 da manhã estava no Twitter – o sistema de mensagens curtas da Internet. Mandou uma mensagem insossa: "É a primeira vez que entro para dizer BOM DIA A TODOS".  Alguns minutos depois, outra mensagem, desta vez com críticas ao governo Dilma. Depois sumiu, contrariando seu padrão de atuação.
Ontem à tarde houve evento na prefeitura de São Paulo. No palco principal, o prefeito Gilberto Kassab, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente FHC em demonstrações explícitas de civilidade política. Serra, na plateia, passando despercebido.
É preciso entender melhor as relações históricas entre FHC e Serra para avaliar o peso das declarações de FHC.
Ambos conviveram no exílio. FHC sempre foi um bom conhecedor de pessoas e considerava Serra por demais voluntarista, personalista, autoritário e arrogante. Foi esse o motivo para quase tê-lo deixado de fora na montagem do seu ministério, em dezembro de 1994.
Por outro lado, Serra tornou-se muito próximo a dona Ruth, quase um filho problemático sendo orientado por ela. Essa aproximação logrou quebrar resistências de FHC que se tornou o grande avalista de Serra, o único aliás.
Foi graças a esse apoio que, depois de perder as eleições para prefeito de São Paulo, Serra foi nomeado Ministro da Saúde, depois de uma atuação medíocre como Ministro do Planejamento. Na Saúde, ganhou cacife político com uma gestão corajosa.
A fraqueza emocional de FHC – bancando a candidatura de Serra – foi fatal para o PSDB e quase fatal para o país. Tivesse sido eleito, em lugar de uma reunião política civilizada – como a que ocorreu ontem na prefeitura de São Paulo – ter-se-ia um país em pé de guerra.
Vários fatos contribuíram para que FHC revisse definitivamente seu julgamento sobre Serra.
A gota d’água foi o livro de Amaury Ribeiro Jr., "A Privataria Tucana" - um nome inadequado para um livro que revela sinais de corrupção especificamente em Serra, não no partido.
A primeira reação de FHC foi vir a público deblaterar contra o livro, que comparou ao famoso "Dossiê Cayman" - uma patacoada criada por partidários de Paulo Maluf com acusações inverossímeis contra FHC, Covas, Motta e o próprio Serra.
Depois, leu o livro. Informações que circularam semanas atrás davam conta de que ficou escandalizado com o que leu.
Agora, o PSDB fica livre para se reconstruir.

Os jornalões e Serra - 1

Na entrevista, FHC unge Aécio Neves como candidato natural do partido e tece elogios ao governador de Pernambuco Eduardo Campos. A grande agonia de Serra foi acompanhar a repercussão nos jornais. Há alguns anos, FHC tornou-se o referencial máximo para os grandes grupos de mídia do eixo Rio-São Paulo. Serra tem boa ascendência, contato com alguns jornalistas influentes, mas o que o segurava era o aval de FHC.

Os jornalões e Serra - 2

No dia seguinte, houve uma tentativa da Folha de minimizar a entrevista, supondo que FHC tivesse desagrado gregos e troianos, serristas e aecistas. Os primeiros (na verdade meia dúzia de tucanos) por desqualificar Serra; os segundos, por expor Aécio, que pretende ficar em segundo plano até ser indicado. O apoio de FHC consolida Aécio no PSDB. Não terá repercussão maior fora da mídia e dos partidos políticos.

A fim da blindagem

Em toda sua vida política, Serra sempre foi protegido por uma blindagem, devido ao seu passado intelectual. Essa blindagem impediu que fosse questionado sobre a mudança do padrão de vida ainda em pleno governo Montoro – no qual ocupou seu primeiro cargo público. Em pouco tempo saiu de um pequeno sobrado na Vila Madalena para um sobrado amplo perto da Praça Panamericana. Aos amigos dizia ter conseguido um aluguel barato.

Os iludidos

Sua atuação de bastidores iludiu não apenas a FHC, mas também Lula, seus colegas na Unicamp, jornalistas, amigos dos tempos de exílio. Nas eleições, algumas de suas características ficaram evidentes, como o uso de dossiês contra adversários – de Aécio a Dilma -, o discurso religioso, destoando de toda sua vida política. Mas ainda havia crença de que não se valeu da influência política para ganhos pessoais.

O livro de Amaury

O livro “A Privataria Tucana” demoliu as últimas defesas de Serra. Pelos documentos apresentados, reconstitui-se sua trajetória nas privatizações. Para fora do governo, fazia um discurso aparentemente crítico à privatização desvariada. Para dentro, era o encarregado da privatização e seu defensor mais acerbo. Tempos atrás, o próprio FHC afirmou que Serra foi o mais radical defensor da privatização da Vale.

Privatização e benefício pessoal

Nem se considere a questão ideológica. A privatização tem um conjunto de méritos assim como uma série de restrições. Daí a importância de ser trabalhada sem dogmatismo. Mas Serra abriu mão de projetos que poderiam tê-la legitimado – como, por exemplo, a privatização com fundos sociais, beneficiando optantes do FGTS, cotistas do FAT. Boicotou a iniciativa. Agora, sabe-se que havia interesses de ordem pessoal em sua posição.